Folhas de alumínio
Levantei para andar um pouco e respirar ar fresco. Como sempre, o tempo estava frio em São Francisco. Só então reparei que era quase meia-noite e havia poucas pessoas na calçada aguardando condução. Acendi um cigarro e me lembrei, como sempre, que devia parar de fumar. Desculpei-me a mim mesmo dizendo que sim, vou parar, aquele seria um dos últimos. Ao virar-me para jogar o fósforo usado na lixeira (afinal, brasileiro nos Estados Unidos joga lixo na lixeira), notei uma figura sentada num banco de cimento, com um sobretudo verde-cinza escuro, ligeiramente aveludado. Pelo tipo físico e cabelo, notei logo ser uma oriental. Ela estava cabisbaixa, apoiando o queixo com ambas as mãos, cotovelos nos joelhos, olhar fixo no asfalto à frente, imóvel. E sem malas.
Dei alguns passos em direção ao meio-fio, olhei discretamete para a esquerda e agora pude notar seus olhos negros e fixos. Nem o passar dos táxis amarelos bem em frente causava qualquer alteração no seu semblante. Talvez por não ter nada melhor para fazer, comecei a imaginar de onde ela era, se havia perdido sua mala, se havia algo de especial, até mesmo insubstituível na mala extraviada, se aguardava alguém, se era uma pessoa interessante, o que fazia na vida, para onde ia. Acendi outro cigarro e me autodesculpei novamente, enquanto caminhava para a direita, lentamente me afastando da minha colega de misfortune.
Decidi, repentinamente, voltar. Antes, porém, de pensar no que iria dizer ou como tentaria iniciar mais uma conversa com um total estranho, ela mesma --que também já havia decidido caminhar em minha direção-- tomou a iniciativa de quebrar o gelo:
"New York, PI", disse num num tom tão seco quanto charmoso..."
Muito prazer, eu sou o José, mas pode me chamar de Joe", respondi com firmeza, querendo causar uma boa impressão. Quando ainda tencionava perguntar o seu nome e o que queria dizer com PI --"pi ai", foi isso mesmo que eu ouvi, essas duas letras em inglês--, ela partiu bruscamente, como se estive fugindo de mim. Não era ainda meia-noite nem eu imaginava que aquele aeroporto serviria de cenário para mais um desses remakes de Cinderela. No entanto, ela deixou cair um cartão personalizado, onde podia-se ler uma singela inscrição, em letras bem centradas e estilizadas: New York, PI.
"Puxa, como é que eu não pensei nisso antes", confabulei com os meus botões. "Uma detetive particular, private investigator, só pode ser isso..."
Nesse momento uma rajada de vento trouxe grossos pingos de chuva e um violento trovão anunciou mais uma tempestade. Entrei no terminal e procurei um lugar para tomar um whiskey.
Enquanto saboreava o malte de um Glenfiddich sem gelo, meus pensamentos se perdiam em tentativas de associações remotas. Tentava relembrar o que foi, afinal, que me trouxera à Costa Oeste quando decidi deixar aquele emprego no Japão, depois de vários anos viajando pela Ásia e pelo Oriente Médio. Nunca havia questionado a oferta que recebera da Califórnia, mas não estava tão seguro quanto à sedução da minha colega de firma, Brigitte. Foi através dela e somente por sua causa que eu decidi separar-me da minha esposa em Tóquio, depois de vinte anos de casamento, e aventurar-me nas conquistas do Velho Oeste. Talvez aquele enigmático cartão tivesse alguma coisa a ver com tudo isso. Mas qual seria a conexão entre Brigitte e aquela bela figura que me deixara uma pista, como se estivesse a desvendar os mistérios de minha confusa existência? Brigitte nunca fora nenhum enigma para mim, na verdade nunca passou de uma tentação maravilhosa, dessas com que todos os homens sonham... Talvez por causa das rotinas dessa vida, depois de tantas vivências sem maiores desafios, com dois filhos criados e independentes, minha esposa repetindo diariamente que tinha de voltar ao Brasil, eu ainda aguardando algum sinal escatológico que pudesse investir minha vida com sentido. Brigitte apareceu como um messias -- e que messias!
Ainda chovendo, o táxi me deixou na calçada do velho Winston Hotel na Market Street. Gostava de ficar no centro da cidade, onde podia ver uma gama impressionante de tipos diferentes de pessoas, entre milionários, artistas de rua, mendigos, punks, pessoas de mil nacionalidades. Talvez pela sua multiplicidade e convivenvia pacífica de todo tipo de gente, São Francisco era uma das minhas cidades preferidas. Olhando a deslumbrante vista do elevador panoramico indo para o vigésimo oitavo andar, frustado com o extravio da mala, com o fato de não dispor dos documentos que precisaria para a reunião do dia seguinte, pensava apenas em descansar e me recuperar da longa viagem. Entrei no quarto e notei a luz piscando do telefone, indicando que havia uma mensagem. Na verdade eram 3 mensagens: Brigitte me convidando para almoçar, a empresa aérea informando que minha mala havia chegado, e uma mensagem anonima, com sotaque oriental, “New York, PI”.
"Não quero mais", disse Brigitte como se estivesse se desculpando. "Como assim?" Indaguei atonito. "Desculpe Joe, mas achei que estava apaixonada. Voce é uma pessoa tão boa, tão carinhosa ... e suas aventuras, sua história ... fiquei impressionada, mas descobrí que estava só impressionada. E depois que conhecí Larry, soube que era ele que amava." Uma sensação gelada tomou conta de mim enquanto ouvia essas palavras. O motivo da minha separação, de sair de Tóquio, do emprego, de mudar de vida ... simplesmente desapareceu em alguns segundos. E com a mesma rapidez, esvaiu-se qualquer sentimento por Brigitte. Permanecí calado enquanto acendia um cigarro. Levantei, olhei-a nos olhos de relance, deixei uma nota de cem dólares na mesa e me afastei em silencio.